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Spreads e Comissões, o custo invisível que mata o trading

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Spreads e comissões parecem detalhes técnicos, mas são uma das chaves para ter lucro real no trading. Abaixo, de forma simples e direta, vais saber como te cobram e como podem destruir ou impulsionar a tua performance se operares sem consciência destes custos.

O que é uma comissão no trading?

Uma comissão é uma taxa explícita que o intermediário te cobra para executar a compra ou venda de um ativo. Pode ser um valor fixo por transação (por exemplo, 4,95€ por ordem) ou uma percentagem sobre o valor da operação, típica em corretoras tradicionais ou produtos específicos.

Ao longo dos últimos anos, muitas plataformas passaram a anunciar “comissão zero” sobretudo em ações e ETFs, mas isso não significa custo zero. Em muitos casos:

Eliminam a comissão explícita.

Ajustam a forma de ganhar dinheiro através do spread, financiamento overnight, comissões em derivados ou outros serviços.

Por isso, ver “zero € de comissão” não chega. É preciso entender como a corretora é remunerada, porque no mercado ninguém trabalha de graça.

O que é o spread?

O spread é a diferença entre o preço de compra (ask) e o preço de venda (bid) de um ativo num determinado momento. O bid é o que o mercado está disposto a pagar; o ask é o que o mercado está disposto a aceitar para vender. A diferença entre os dois é o spread, medido quase sempre em pips no Forex e em cêntimos em ações.

Exemplo simples:

EURUSD cotado a 1,07373 (bid) / 1,07376 (ask).

Spread: 0,3 pips (ou 3 “points” na plataforma).
Se operares 1 lote padrão (100.000 unidades), esse spread equivale a cerca de 3 dólares de custo implícito, pago no momento em que entras e só recuperado se o preço se mover a teu favor mais do que essa diferença.

Diferença essencial: comissão vs spread

A forma prática de separar mentalmente:

Comissão: fee explícita. Vês a cobrança na plataforma em euros/dólares. É debitada pela corretora pelo serviço de execução.

Spread: custo implícito no preço. Não aparece como linha “comissão”, mas está embutido na diferença entre bid e ask. Paga-se sempre que entras numa posição de compra ou venda; no momento em que abres o trade já estás em ligeira perda igual ao spread.

Ou seja, podes ter:

Conta com comissão + spreads geralmente mais baixos.

Conta sem comissão explícita, mas com spreads mais largos.
Quem faz scalping ou operações de poucos pips precisa de olhar com lupa para esta escolha, porque 1 pip de spread em trades de 10 pips é 10% do movimento, mas em trades de 50 pips é apenas 2%.

Como o spread e a comissão entram na matemática de cada trade

Quando abres uma posição de compra:

Entras pelo ask.

Se fechasses imediatamente, sairias pelo bid.
A diferença entre esses dois preços é o spread, e por isso, assim que abres o trade, estás logo com um pequeno prejuízo. Só quando o preço se move na tua direção para além do spread é que começas a ver lucro.

Se, além disso, pagas uma comissão por lado:

Tens o spread implícito + uma comissão explícita na entrada.

E, muitas vezes, outra comissão na saída (metade em cada lado, no caso de alguns modelos).

Num trade muito curto (por exemplo, 5–10 pips de alvo), esses custos podem representar:

Parte substancial do lucro potencial.

Ou até transformar uma estratégia aparentemente vencedora num sistema que perde dinheiro no longo prazo.

O impacto brutal dos custos em trades de poucos pips

Quanto mais curta é a distância entre o ponto de entrada e o take profit, maior é o peso relativo do spread e da comissão. Se o teu TP é de 10 pips e o spread é 1 pip:

Precisas que o mercado ande 11 pips a teu favor para receber 10.

Mas, se o stop também é de 10 pips, muitas vezes bastará uma oscilação de 9 pips contra ti (dependendo do lado) para o stop ser atingido, por causa da forma como a plataforma usa bid/ask para abrir e fechar posições.

Resultado:

Tens probabilidade maior de bater o stop do que o alvo, mesmo com um TP e um SL geometricamente “iguais”.

O sistema precisa de uma taxa de acerto bem maior do que 50% para ser lucrativo.

Se somares comissões fixas por trade aos spreads, fica ainda mais difícil que estratégias baseadas em micro-movimentos sejam sustentáveis para iniciantes. É por isso que muitos traders profissionais:

Evitam scalping com contas de alto spread.

Preferem alvos maiores (por exemplo, 30–50 pips ou mais) para diluir o peso dos custos em cada operação.

Por que spreads apertados e pares líquidos importam

A atenção dos spreads é muito evidente no mercado Forex, ie, de negociação entre moedas. Regra de ouro, quanto maior o volume negociado num ativo, mais competitivo tende a ser o spread.

No Forex, os pares principais (“majors”) são EURUSD, GBPUSD, USDJPY, USDCHF, USDCAD, AUDUSD. Aí se negoceiam centenas de mil milhões por dia e, por isso, costumam ter:

Spreads mais estreitos.

Menores custos de entrada e saída.

Melhor execução, menor derrapagem (o preço a que queres comprar e vender é mais próximo da ordem a que é executado), em condições normais.

Para quem está a começar ou para quem depende de boa eficiência de custos:

Dá prioridade a ativos com volume alto e spreads reduzidos.

Tem cuidado com pares exóticos, ações com pouca liquidez ou horários de baixa volatilidade, onde o spread tende a abrir significativamente.

Estratégias práticas para minimizar o impacto de spread e comissão

Escolhe ativos e horários com cuidado

Operar “majors” no Forex e ações muito líquidas (muito volume) tende a reduzir spreads.

Evita operar em momentos de alargamento típico (abertura de mercado, fecho de mercado, notícias pesadas), quando não tens vantagem clara.

Evita estratégias dependentes de micro-movimentos (se és iniciante)

Targets muito curtos ficam à mercê do spread e da aleatoriedade.

Dá preferência a setups com alvos mais ambiciosos, onde 1–2 pips extra de custo não matam o teu retorno real.

Compara contas e estruturas de custo

Testa contas demo com comissão.

Calcula quanto pagarias, em média, por trade, juntando spread e comissão, para o teu estilo de negociação e timeframe de negociação.

Integra custos na tua gestão de risco

Quando defines o teu alvo de venda, recorda que o teu lucro deve inclui custos de spread + comissão.

Ajusta o tamanho da posição não só ao stop, mas também à soma dos custos de entrada e saída.

Mantém registo dos custos por tipo de estratégia

Usa um diário de trading que registe lucro bruto, spread/commission e lucro líquido.

Isto permite ver quais estratégias sobrevivem à realidade dos custos e quais só funcionam em papel.

Conclusão

Spreads e comissões não são detalhes laterais; são a linha de água entre um sistema viável e um sistema que morre lentamente, mesmo com setups “bons” no gráfico.

Quem ignora custos de transação está sempre a correr uma maratona em subida; quem os domina, transforma-os num recurso estratégico, e não numa fuga constante de capital.


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